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Casa e Mercado
A Beleza de bem Servir
outubro 20, 2026
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Design
Mais do que compor uma cena, a mesa posta celebra o encontro entre estética, matéria e cotidiano, transformando o ritual da alimentação em uma experiência de presença e memória
Há algo de profundamente humano em preparar a mesa antes de uma refeição. Para além de organizar objetos, o gesto estabelece uma atmosfera, anuncia um encontro e transforma o cotidiano em ocasião. Entre louças, talheres, cristais, tecidos e flores, a mesa posta revela uma delicada arquitetura do convívio e anuncia um território em que beleza e funcionalidade encontram seu equilíbrio mais íntimo.
Se a alimentação responde a uma necessidade essencial, a maneira como nos sentamos à mesa pertence ao universo dos ritos. Escolher uma louça, dobrar um guardanapo, acender uma vela, distribuir os lugares: cada decisão acrescenta uma camada de significado ao momento. É justamente nessa combinação entre uso e contemplação que o design encontra um de seus campos mais sofisticados de expressão.
A verdade é que a história da cozinha acompanha a própria evolução das sociedades. Reunir-se em torno do alimento é um dos gestos mais antigos da convivência humana e permanece essencial à vida doméstica contemporânea. Para Christie Schulka, diretora de Marketing do Grupo Tecno, essa dimensão atravessa o tempo: “A cozinha ou o espaço gourmet ainda é o coração da casa”. É nesse ambiente que preparo, tecnologia e relações afetivas se encontram, fazendo do cozinhar, e comer, uma experiência que vai além da função.
Almoço ganha um toque de rusticidade com a Linha Magnólia, da Wolff. Foto: Divulgação.
A beleza que serve
O design aplicado à mesa não se resume à aparência. Uma peça bem concebida estabelece uma relação silenciosa com quem a utiliza. Proporção, ergonomia, textura, peso e matéria participam de uma experiência que ultrapassa o olhar.
Na mesa, a estética não deve competir com a comida, mas estabelecer com ela uma conversa. Uma porcelana de linhas precisas pode enfatizar a delicadeza de um prato; a cerâmica artesanal, com suas irregularidades, acrescenta calor e espontaneidade; o cristal, ao refletir a luz, introduz uma dimensão cênica à refeição.
Para Ana Maria Chapela, chef de cozinha e coordenadora de eventos da Fischer, a experiência gastronômica começa antes mesmo da primeira garfada. “A experiência de uma refeição começa muito antes da primeira garfada: ela nasce no estímulo visual, no aroma que invade o ambiente e até no som do preparo na cozinha, na textura do alimento e, claro, na temperatura.”
Essa percepção amplia o papel do design à mesa. Os objetos não são meros coadjuvantes da gastronomia: eles participam da construção de uma experiência sensorial em que forma, sabor e atmosfera se complementam, conciliando beleza e desempenho. Como sintetiza Ana, “o que diferencia a comida que simplesmente alimenta daquela que se torna memória é a capacidade de contar uma história e de despertar uma emoção profunda”.
Loops, de Brunno Jahara, para a St. James.
O cotidiano como ocasião
A mesa posta já esteve associada a celebrações e grandes recepções. Hoje, porém, o gesto ganha uma interpretação mais contemporânea. Não é preciso esperar uma data especial para dispor uma toalha de linho, escolher uma louça especial ou colocar flores no centro da mesa. Há elegância em reconhecer o valor das pequenas ocasiões. A mesa funciona, assim, como moldura para o tempo, um convite à pausa e à presença.
Essa atmosfera não se constrói apenas pela disposição dos objetos. A experiência começa também na cozinha, onde o preparo estabelece o ritmo e desperta a expectativa pelo que será servido. Para Christie Schulka, a tecnologia tem um papel importante nesse processo quando oferece conforto e fluidez às tarefas, permitindo que os equipamentos acompanhem as dinâmicas da casa sem se sobrepor a elas.
“Não é só a tecnologia, é como ela traz este conforto”, afirma Christie, ao destacar a importância de conceber produtos a partir das necessidades de quem os utiliza. A reflexão aponta para uma dimensão essencial do design contemporâneo: a inovação ganha significado quando melhora a experiência cotidiana, favorece os gestos e permite que a atenção se volte ao que realmente importa.
O fogão de indução Bertazzoni recebeu o com selo IF DESIGN AWARD 2022. Fotos: Divulgação.
Matéria, textura e memória
Em uma época marcada pela velocidade e pela predominância das superfícies digitais, cada material acrescenta uma camada sensorial ao conjunto.